Durante muito tempo, criou-se no imaginário popular aquela velha ideia de que vice serve apenas para acompanhar o titular, participar de solenidades e esperar por uma eventual ausência do chefe do Executivo.
Na política real, a história é bem diferente.
Seja na disputa pela Presidência da República, por um governo estadual ou por uma prefeitura, escolher um vice pode ser uma das decisões mais delicadas de uma campanha. E há uma razão simples: não se escolhe apenas quem estará ao lado do candidato na fotografia. Escolhe-se alguém que pode ajudar a ganhar a eleição e que, em determinadas circunstâncias, poderá assumir efetivamente o comando do governo.
A história brasileira já demonstrou isso diversas vezes.
Por isso, pelo menos dois aspectos costumam pesar fortemente nessa definição. O primeiro é institucional: confiança, lealdade, capacidade administrativa e condições para substituir o titular. O segundo é essencialmente político: o que aquele nome acrescenta à chapa?
É aí que entram partido, alianças, bases eleitorais, representatividade regional, tempo de propaganda, estrutura partidária, capacidade de dialogar com determinados segmentos e, naturalmente, votos.
Não há necessariamente algo irregular nisso. É da própria natureza das coalizões políticas. Uma chapa procura reunir forças diferentes para ampliar seu alcance eleitoral e construir sustentação para um eventual governo.
Em algumas campanhas, o vice ajuda a conquistar uma região onde o candidato principal é mais fraco. Em outras, aproxima determinado segmento social ou político. Há ainda situações em que a escolha serve para consolidar uma aliança entre partidos.
E existe um elemento que muitas vezes não aparece publicamente: a conveniência política.
Quem soma? Quem agrega? Quem reduz resistências? Qual partido precisa ser contemplado? Qual escolha pode provocar a saída de outro aliado?
São perguntas que ajudam a explicar por que a definição de um vice pode provocar semanas — às vezes meses — de negociações.
A Paraíba oferece um exemplo atual
A construção da chapa liderada pelo governador Lucas Ribeiro (PP) para as eleições de 2026 tornou-se um exemplo dessa complexidade.
Vários nomes circularam nas discussões da base governista. Entre eles esteve o da tenente-coronel Viviane Vieira, que confirmou publicamente ter sido apresentada pelo PSB como uma das opções para a vaga. A própria militar afirmou que a decisão caberia ao governador e colocou-se à disposição.
Viviane carrega como principal ativo uma trajetória ligada à segurança pública. Em suas manifestações públicas, destacou justamente a possibilidade de contribuir nessa área. Por outro lado, nas articulações políticas, um currículo técnico não é o único elemento considerado: capacidade eleitoral, presença territorial e articulação partidária também costumam entrar na equação.
Isso não significa diminuir os serviços prestados por qualquer pretendente. Significa compreender que uma coisa é possuir credenciais profissionais; outra é aquilo que partidos e candidatos avaliam como capacidade de agregar eleitoralmente a uma chapa majoritária.
Outro nome envolvido nas discussões foi o deputado Eduardo Carneiro. O próprio parlamentar afirmou anteriormente que o grupo buscava alguém capaz de agregar força à candidatura e, posteriormente, participar efetivamente da administração, dividindo tarefas e representando o governo.
A declaração talvez sintetize bem o que deveria ser a essência da escolha: um vice não apenas para a eleição, mas também para o governo.
E então surge Lígia Feliciano
O nome de Lígia Feliciano ganhou força nas articulações do União Brasil. Antes mesmo da definição final, o presidente estadual da legenda, deputado federal Damião Feliciano, já defendia publicamente sua indicação e destacava o peso político e partidário do União Brasil na composição. A direção nacional da legenda também havia avalizado o nome.
Lígia possui uma característica que a diferencia no debate: experiência no próprio cargo. Ela já exerceu a vice-governadoria da Paraíba durante dois mandatos, nas gestões de Ricardo Coutinho e João Azevêdo.
Mas nenhuma escolha política importante acontece sem provocar reação.
Após o anúncio de Lígia, segundo a declaração relatada pelo vereador de João Pessoa Marcos Henriques (PT), surgiu a insatisfação pela ausência do Partido dos Trabalhadores na chapa majoritária. Para o vereador, deixar o PT fora da composição teria sido um “tiro errado”.
A crítica revela outro componente fundamental dessa discussão.
Escolher um vice significa também deixar outros pretendentes e partidos de fora.
E, muitas vezes, o problema político começa justamente aí.
Uma escolha pode fortalecer a relação com determinado partido e, simultaneamente, gerar desconforto em outro. Pode agregar eleitoralmente em uma região e provocar resistência em outra. Pode aproximar um segmento e afastar outro.
É praticamente impossível encontrar um nome que contemple todos os interesses existentes dentro de uma ampla aliança.
A pergunta não deveria ser apenas “quem será o vice?”
Talvez o eleitor devesse fazer uma pergunta diferente:
Por que esse vice foi escolhido?
Foi pela experiência?
Pela capacidade administrativa?
Pelo peso eleitoral?
Para ampliar a chapa em determinada região?
Para representar algum segmento?
Para garantir o apoio de um partido?
Ou por uma combinação de todos esses fatores?
Essas perguntas são importantes porque a Constituição não trata o vice como personagem decorativo. Se houver impedimento, afastamento, renúncia ou outra situação prevista legalmente, é justamente ele quem pode assumir o comando.
E exemplos não faltam na história brasileira.
José Sarney chegou à Presidência após a morte de Tancredo Neves. Itamar Franco assumiu depois do afastamento e da renúncia de Fernando Collor. Michel Temer tornou-se presidente após o impeachment de Dilma Rousseff.
Portanto, quando alguém vota para presidente, governador ou prefeito, também está votando no vice.
Esse detalhe deveria receber muito mais atenção.
Vice precisa somar na eleição — mas também estar preparado para governar
É legítimo que partidos façam cálculos eleitorais. Política também é construção de maioria, negociação e composição.
O perigo aparece quando a matemática eleitoral se transforma no único critério.
Um vice pode trazer votos, estrutura partidária, recursos políticos e capilaridade. Tudo isso possui importância numa eleição. Mas existe uma pergunta que deveria permanecer acima de qualquer cálculo:
se amanhã essa pessoa precisar assumir o governo, estará preparada?
É por isso que a escolha precisa encontrar equilíbrio entre conveniência eleitoral e responsabilidade institucional.
O episódio paraibano de 2026 mostra exatamente isso: diferentes nomes podem apresentar atributos distintos, enquanto partidos disputam espaços e lideranças avaliam aquilo que cada alternativa acrescenta ou retira da composição.
E não há novidade nisso. Situações semelhantes acontecem em Brasília, nos estados e nos municípios brasileiros.
Provavelmente, em algum momento, você já acompanhou algo parecido na política da sua própria cidade.
No final, aquela pessoa que durante a campanha aparece discretamente ao lado do candidato pode acabar tendo enorme influência na vitória, na formação do governo e, eventualmente, no comando do Executivo.
Vice pode até ocupar o segundo lugar na chapa. Na importância da escolha, porém, está muito longe de ser apenas o segundo nome.

















