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Vice não é figura decorativa: por que a escolha do segundo nome de uma chapa pode decidir uma eleição — e até os rumos de um governo

Da Presidência da República às prefeituras, escolha envolve confiança, peso eleitoral, alianças, capilaridade e capacidade de governar; movimentações recentes na Paraíba mostram como uma vaga aparentemente secundária pode se transformar no centro das articulações políticas

paraibadagente por paraibadagente
12/08/2026
in Destaques, Notícias
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Vice não é figura decorativa: por que a escolha do segundo nome de uma chapa pode decidir uma eleição — e até os rumos de um governo
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Durante muito tempo, criou-se no imaginário popular aquela velha ideia de que vice serve apenas para acompanhar o titular, participar de solenidades e esperar por uma eventual ausência do chefe do Executivo.

Na política real, a história é bem diferente.

Seja na disputa pela Presidência da República, por um governo estadual ou por uma prefeitura, escolher um vice pode ser uma das decisões mais delicadas de uma campanha. E há uma razão simples: não se escolhe apenas quem estará ao lado do candidato na fotografia. Escolhe-se alguém que pode ajudar a ganhar a eleição e que, em determinadas circunstâncias, poderá assumir efetivamente o comando do governo.

A história brasileira já demonstrou isso diversas vezes.

Por isso, pelo menos dois aspectos costumam pesar fortemente nessa definição. O primeiro é institucional: confiança, lealdade, capacidade administrativa e condições para substituir o titular. O segundo é essencialmente político: o que aquele nome acrescenta à chapa?

É aí que entram partido, alianças, bases eleitorais, representatividade regional, tempo de propaganda, estrutura partidária, capacidade de dialogar com determinados segmentos e, naturalmente, votos.

Não há necessariamente algo irregular nisso. É da própria natureza das coalizões políticas. Uma chapa procura reunir forças diferentes para ampliar seu alcance eleitoral e construir sustentação para um eventual governo.

Em algumas campanhas, o vice ajuda a conquistar uma região onde o candidato principal é mais fraco. Em outras, aproxima determinado segmento social ou político. Há ainda situações em que a escolha serve para consolidar uma aliança entre partidos.

E existe um elemento que muitas vezes não aparece publicamente: a conveniência política.

Quem soma? Quem agrega? Quem reduz resistências? Qual partido precisa ser contemplado? Qual escolha pode provocar a saída de outro aliado?

São perguntas que ajudam a explicar por que a definição de um vice pode provocar semanas — às vezes meses — de negociações.

A Paraíba oferece um exemplo atual

A construção da chapa liderada pelo governador Lucas Ribeiro (PP) para as eleições de 2026 tornou-se um exemplo dessa complexidade.

Vários nomes circularam nas discussões da base governista. Entre eles esteve o da tenente-coronel Viviane Vieira, que confirmou publicamente ter sido apresentada pelo PSB como uma das opções para a vaga. A própria militar afirmou que a decisão caberia ao governador e colocou-se à disposição.

Viviane carrega como principal ativo uma trajetória ligada à segurança pública. Em suas manifestações públicas, destacou justamente a possibilidade de contribuir nessa área. Por outro lado, nas articulações políticas, um currículo técnico não é o único elemento considerado: capacidade eleitoral, presença territorial e articulação partidária também costumam entrar na equação.

Isso não significa diminuir os serviços prestados por qualquer pretendente. Significa compreender que uma coisa é possuir credenciais profissionais; outra é aquilo que partidos e candidatos avaliam como capacidade de agregar eleitoralmente a uma chapa majoritária.

Outro nome envolvido nas discussões foi o deputado Eduardo Carneiro. O próprio parlamentar afirmou anteriormente que o grupo buscava alguém capaz de agregar força à candidatura e, posteriormente, participar efetivamente da administração, dividindo tarefas e representando o governo.

A declaração talvez sintetize bem o que deveria ser a essência da escolha: um vice não apenas para a eleição, mas também para o governo.

E então surge Lígia Feliciano

O nome de Lígia Feliciano ganhou força nas articulações do União Brasil. Antes mesmo da definição final, o presidente estadual da legenda, deputado federal Damião Feliciano, já defendia publicamente sua indicação e destacava o peso político e partidário do União Brasil na composição. A direção nacional da legenda também havia avalizado o nome.

Lígia possui uma característica que a diferencia no debate: experiência no próprio cargo. Ela já exerceu a vice-governadoria da Paraíba durante dois mandatos, nas gestões de Ricardo Coutinho e João Azevêdo.

Mas nenhuma escolha política importante acontece sem provocar reação.

Após o anúncio de Lígia, segundo a declaração relatada pelo vereador de João Pessoa Marcos Henriques (PT), surgiu a insatisfação pela ausência do Partido dos Trabalhadores na chapa majoritária. Para o vereador, deixar o PT fora da composição teria sido um “tiro errado”.

A crítica revela outro componente fundamental dessa discussão.

Escolher um vice significa também deixar outros pretendentes e partidos de fora.

E, muitas vezes, o problema político começa justamente aí.

Uma escolha pode fortalecer a relação com determinado partido e, simultaneamente, gerar desconforto em outro. Pode agregar eleitoralmente em uma região e provocar resistência em outra. Pode aproximar um segmento e afastar outro.

É praticamente impossível encontrar um nome que contemple todos os interesses existentes dentro de uma ampla aliança.

A pergunta não deveria ser apenas “quem será o vice?”

Talvez o eleitor devesse fazer uma pergunta diferente:

Por que esse vice foi escolhido?

Foi pela experiência?

Pela capacidade administrativa?

Pelo peso eleitoral?

Para ampliar a chapa em determinada região?

Para representar algum segmento?

Para garantir o apoio de um partido?

Ou por uma combinação de todos esses fatores?

Essas perguntas são importantes porque a Constituição não trata o vice como personagem decorativo. Se houver impedimento, afastamento, renúncia ou outra situação prevista legalmente, é justamente ele quem pode assumir o comando.

E exemplos não faltam na história brasileira.

José Sarney chegou à Presidência após a morte de Tancredo Neves. Itamar Franco assumiu depois do afastamento e da renúncia de Fernando Collor. Michel Temer tornou-se presidente após o impeachment de Dilma Rousseff.

Portanto, quando alguém vota para presidente, governador ou prefeito, também está votando no vice.

Esse detalhe deveria receber muito mais atenção.

Vice precisa somar na eleição — mas também estar preparado para governar

É legítimo que partidos façam cálculos eleitorais. Política também é construção de maioria, negociação e composição.

O perigo aparece quando a matemática eleitoral se transforma no único critério.

Um vice pode trazer votos, estrutura partidária, recursos políticos e capilaridade. Tudo isso possui importância numa eleição. Mas existe uma pergunta que deveria permanecer acima de qualquer cálculo:

se amanhã essa pessoa precisar assumir o governo, estará preparada?

É por isso que a escolha precisa encontrar equilíbrio entre conveniência eleitoral e responsabilidade institucional.

O episódio paraibano de 2026 mostra exatamente isso: diferentes nomes podem apresentar atributos distintos, enquanto partidos disputam espaços e lideranças avaliam aquilo que cada alternativa acrescenta ou retira da composição.

E não há novidade nisso. Situações semelhantes acontecem em Brasília, nos estados e nos municípios brasileiros.

Provavelmente, em algum momento, você já acompanhou algo parecido na política da sua própria cidade.

No final, aquela pessoa que durante a campanha aparece discretamente ao lado do candidato pode acabar tendo enorme influência na vitória, na formação do governo e, eventualmente, no comando do Executivo.

Vice pode até ocupar o segundo lugar na chapa. Na importância da escolha, porém, está muito longe de ser apenas o segundo nome.

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