O Brasil é mesmo um país de contrastes — e, às vezes, esses contrastes parecem caber perfeitamente na tela de um celular.
De um lado, famílias fazendo contas no supermercado para decidir o que pode ou não entrar no carrinho. Pessoas dependendo de ajuda para comprar medicamentos. Pacientes que enfrentam horas de estrada em ônibus ou vans para conseguir uma consulta, um exame ou um tratamento de saúde longe de casa.
Do outro, uma realidade tão distante que parece pertencer a outro mundo.
A influenciadora Virginia Fonseca voltou a chamar atenção nas redes sociais nesta terça-feira (11) ao realizar mais um “bate-volta” de jatinho particular entre São Paulo e Goiânia. O motivo da viagem? Treinar em sua própria academia.
Virginia havia prometido aos seguidores que retornaria à capital goiana para participar novamente dos aulões da WeGym e cumpriu. Segundo informações divulgadas pela imprensa, ela deixou São Paulo em avião particular, foi até Goiânia, treinou e depois retornou à capital paulista.
É evidente que, tendo condições financeiras e respeitando a lei, cada pessoa decide como gastar o próprio dinheiro. A questão levantada por muitos internautas, porém, vai além disso.
O episódio escancara o abismo entre diferentes realidades brasileiras.
Enquanto para alguns um avião particular pode funcionar quase como um automóvel para cumprir compromissos cotidianos, para outros conseguir dinheiro para uma passagem de ônibus é um problema real. Enquanto uma viagem aérea é realizada simplesmente para uma sessão de exercícios, existem pacientes que dependem de transporte público, ambulâncias e programas de deslocamento para percorrer centenas de quilômetros em busca de tratamento.
E é justamente esse contraste que incomoda.
Não se trata de condenar alguém simplesmente por ser rico. Também não significa defender que quem conquistou patrimônio não possa usufruí-lo. O questionamento é outro: em uma sociedade marcada por tamanha desigualdade, até que ponto a ostentação transformada em conteúdo deve ser encarada apenas como algo normal?
Há ainda a questão ambiental. Internautas lembraram das campanhas que diariamente orientam o cidadão comum a economizar água, energia, combustível, reduzir resíduos e utilizar meios de transporte menos poluentes. Quando deslocamentos em aeronaves particulares são realizados para atividades que poderiam, em tese, ser feitas sem esse tipo de viagem, surge inevitavelmente o debate sobre a proporcionalidade desse esforço coletivo.
Nas redes sociais, a repercussão foi imediata. Muitos usuários ironizaram o fato de serem constantemente cobrados por pequenas mudanças de hábitos enquanto pessoas extremamente ricas podem manter estilos de vida com uma pegada ambiental muito maior.
Virginia, naturalmente, tem o direito de utilizar seu patrimônio dentro da legalidade. Mas a repercussão mostra que figuras públicas também estão submetidas ao julgamento de uma sociedade cada vez mais incomodada com a distância entre o luxo exibido nas redes sociais e a realidade encontrada do lado de fora delas.
Talvez o episódio diga menos sobre uma influenciadora e mais sobre o país em que vivemos.
Um Brasil onde alguns atravessam estados de jatinho para malhar, enquanto outros atravessam cidades, madrugadas e dificuldades simplesmente para conseguir chegar a um hospital.
O problema não é alguém ter muito.
O que assusta é perceber o tamanho da distância entre quem tem tudo e quem ainda luta pelo básico.
Paraíba da Gente

















