O Brasil tem o maior sistema público de saúde do mundo, que alcança toda a população em algum nível e atende 75% dos que dependem do SUS de forma exclusiva. Especialistas apontam desafios a serem enfrentados pelo presidente que sairá das urnas no próximo domingo na garantia desse direito, como lidar com um financiamento aquém do necessário, gerir longas filas e voltar a atingir as metas de coberturas vacinais.
De um lado, Flávio Bolsonaro (PL) fala em ampliar a contratação de exames e serviços da iniciativa privada em horários ociosos e corrigir a tabela do SUS. Do outro, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aposta em ampliar infraestrutura própria e fortalecer programas em andamento, como o Agora Tem Especialistas, que troca dívidas e créditos de hospitais privados e planos por atendimento no SUS.
Para suprir a falta de profissionais de saúde em áreas remotas, o petista defende a continuidade do programa Mais Médicos, enquanto o senador foca em teleatendimento e menciona incentivos a recém-formados. Sobre vacina, Lula destaca ações como a aplicação em escolas, e Flávio diz apenas que pretende “manter a imunização” e incentivar a produção nacional.
— A vacinação é talvez o maior instrumento de custo-efetividade em programas de saúde pública. O próximo governo deve assumir o compromisso de incentivar a vacinação e investir na aquisição e na produção nacional de doses — diz o vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, Renato Kfouri.
As propostas dos dois candidatos também colocam em debate como gerir o SUS com recursos insuficientes.
— O difícil hoje é conseguir fazer uma gestão mais eficiente com o uso dos recursos já escassos. A redução das filas é um dos pontos mais importantes. Uma das dificuldades é falta de integração entre as redes municipais e estaduais — avalia o sanitarista Gonzalo Vecina, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP e fundador da Anvisa.
Outro problema que precisa ser equacionado é o baixo orçamento para a área, aponta Julia Pereira, gerente de relações institucionais do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps):
— O SUS gastou US$ 779 por pessoa em 2022, enquanto a média da OCDE foi de US$ 4.121.
Abaixo, O GLOBO reuniu as principais propostas dos dois candidatos à Presidência para a Saúde.
Setor privado
Qual será o papel de parcerias no SUS?
Lula: Embora foque na infraestrutura própria, defende a ampliação do Agora Tem Especialistas, que permite a hospitais privados e planos de saúde trocarem crédito financeiro e dívidas por atendimento a pacientes do SUS, com nova tabela SUS de valores de três a quatro vezes maiores e um novo modelo que autoriza o pagamento pelo resultado, e não só pelo procedimento. Além disso, cita acordos de transferência de tecnologia com entidades privadas para aumentar a produção nacional de medicamentos e vacinas no país.
Flávio: Defende ampliar a participação privada, contratando exames e serviços de prestadores com capacidade em horários ociosos e corrigindo a tabela de remuneração do SUS, cobrindo o “custo real” do atendimento realizado por parceiros privados. Também defende instituir um “modelo Einstein” no SUS, mas sem dar detalhes sobre o que isso representaria. Propõe a criação de uma Rede Nacional de Cuidado para idosos e pessoas com deficiência com centros-dia e atendimento domiciliar por meio de parcerias público-privadas.
Filas e acesso
Como lidar com as filas no SUS?
Lula: Promete ampliar o Mais Médicos e, no âmbito do Agora Tem Especialistas, a expansão do terceiro turno nos serviços de saúde, das Carretas da Saúde e dos mutirões de atendimento com consultas, exames e cirurgias. Estabelece a meta de, nos próximos quatro anos, todo município com mais de 150 mil habitantes ter um centro de tratamento de câncer para que nenhum paciente demore mais de 30 dias para começar a terapia, como determina a lei. Defende a criação de uma fila única digital, ordenada pelo risco clínico, e diz que vai manter o crescimento do orçamento para Saúde acima do previsto na Constituição. Fala em teleconsultas com especialistas para pacientes de cidades menores.
Flávio: Propõe a ampliação da Estratégia Saúde da Família e foca no teleatendimento por aplicativo para médicos com baixa demanda atenderem pacientes de locais com filas longas. Defende a modernização de hospitais universitários federais e, em entrevistas anteriores, já mencionou incentivos para recém-formados trabalharem em áreas remotas, sem dar detalhes. A campanha não respondeu se aumentará o financiamento do SUS.
Vacinas
Apenas três imunizantes atingiram a meta em 2025. O que deve ser feito?
Lula: Aposta em ampliar a Estratégia de Vacinação nas Escolas, que leva as equipes de saúde às unidades de ensino, como eixo prioritário para recuperar as coberturas. Diz ainda que vai ampliar a imunização contra a dengue e contra o Vírus Sincicial Respiratório (VSR), principal causador de bronquiolite em crianças pequenas, para toda a população elegível.
Flávio: Sem dar detalhes, defende “manter a imunização e incentivar a produção nacional de vacinas”, um dos principais motivos de críticas feitas à gestão de seu pai durante a pandemia de Covid-19. No debate da Band, domingo, o senador chegou a fazer um mea-culpa, reconhecendo que o governo Bolsonaro “não teve os melhores resultados” na área.
Novas tecnologias
Qual o papel de novas ferramentas na saúde?
Lula: Propõe tecnologias que transcrevem automaticamente teleconsultas médicas e na integração de informações com um prontuário único pela Rede Nacional de Dados em Saúde, em que médicos do SUS poderão consultar o histórico do paciente mesmo que ele tenha sido atendido em outra cidade. A ideia é, também, permitir a marcação de consultas, exames e cirurgias pelo celular, além de acompanhar a situação na fila.
Flávio: Aposta no uso de inteligência artificial para identificar riscos de doenças e antecipar cuidados e agendar consultas e exames. O candidato também propõe a criação de um prontuário eletrônico único integrado ao Gov.br e interoperável entre redes pública e privada.
Opinião de especialista
Em relação às duas propostas de unificação de informações, a gerente do IEPS defende que é preciso pensar primeiro em ampliar a integração dentro do próprio sistema público. De acordo com o Censo Nacional de Unidades Básicas de Saúde (UBS), de 2024, 34,8% dos postos conectados avaliam a conexão como inadequada, e 47,8% não têm estrutura para webconferência:
— Além disso, hoje o SUS tem poucos instrumentos para exigir que a iniciativa privada envie seus dados à rede pública, informações que têm valor comercial para esses agentes. Uma integração mais profunda depende de mudança normativa, não de boa vontade contratual. Outras tecnologias como IA ajudam, mas sozinhas não resolvem. Não substituem a necessidade de contratar, formar e fixar equipes.
Envelhecimento
Como lidar com os impactos do envelhecimento da população?
Lula: Defende expandir a rede de atendimento dos centros-dia e outros equipamentos para promoção do envelhecimento saudável, como academias públicas. Aposta na ampliação de vagas públicas em Instituições de Longa Permanência (ILPIS) e em levar para todo o país o Programa de Atenção Domiciliar ao Idoso (PADI Brasil), voltado ao atendimento domiciliar multiprofissional a idosos com limitações funcionais, condições crônicas e fragilidades clínicas.
Flávio: Além da Rede Nacional de Cuidado, o candidato do PL propõe a criação do programa Casa Segura para Envelhecer, com subsídio à acessibilidade domiciliar para famílias de menor renda. Promete desenvolver um aplicativo de companhia com alertas de perigo, “para que o idoso tenha o amparo da tecnologia, e o filho que mora longe tenha tranquilidade”. Também defende a ampliação das instituições de longa permanência.
Com O Globo












