O emprego e a renda do brasileiro estão em níveis recordes. O problema é que o endividamento e a inadimplência também – e não só eles cresceram a níveis inéditos como, principalmente, conseguiram subir ainda mais rápido do que os salários.
É esta combinação uma dos principais fatores indicados por economistas e especialistas que podem explicar o mistérios de o brasileiro não sentir com tanto entusiasmo que a vida melhorou e, em última instância, também não ter convertido os aumentos que teve na renda em aprovação e, claro, votos ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Não à toa, mais uma edição do programa de renegociações de dívidas Desenrola foi um dos itens do pacote de benefícios de última hora feitos por Lula nos últimos dias antes do primeiro turno, e que incluíram ainda um reajuste acumulado do Bolsa Família e a proibição das bets do dia para a noite.
Entre 2021 e 2026, a renda média do brasileiro, medida pelo IBGE, saiu de 2.338 reais para 3.777, valor registrado em agosto, dado mais recente divulgado. É uma aumento nada ruim de 51% e que cobre com razoável folga o aumento da inflação, que foi de 38% no mesmo período. O problema é que as dívidas cresceram bem mais rápido.
Não só o número de inadimplentes disparou no Brasil neste período, como também o valor devido por eles deu um salto: saiu de saiu de 3.820 reais em janeiro de 2021 para 7.050 reais em agosto, conforme levantamento feito pela Serasa Experian. É um aumento de 81% e que deixa bem para trás tanto a inflação quanto a renda.
Em agosto, de acordo com a Serasa, 81 milhões estavam inadimplentes, ou seja, com ao menos uma conta em atraso. É um número recorde e que abarcou mais de 20 milhões de pessoas desde 2021 – ano em que, na saída da pandemia, uma mistura de aumento nos juros com rápido avanço dos bancos digitais fez com que os números do endividamento das famílias começam a piorar de maneira contínua e significativa.
Um cruzamento de dados feito pela Tendências Consultoria mostra que, descontados os gastos essenciais, como aluguel e comida, e as dívidas, a renda livre que sobra para os brasileiros ao fim do mês está atualmente nos menores patamares desde 2011, anos em que começam as séries de crédito e dívida do Banco Central.
Esta sobra é atualmente de 21%, ante a faixa de 23% a 24% em que flutuava em 2019, antes da pandemia, e os mais de 26% que chegou a alcanças em 2011. “Temos alto endividamento com juros também altos e inflação”, explicou Isabela Tavares, economista da Tendências. “A renda cresce, mas, de um lado, as pessoas não conseguem comprar as mesmas coisas e, de outro, não conseguem pagar seus débitos, então elas acabam não sentindo que o poder de compra aumentou.”
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