Faltam apenas quatro dias para as eleições. No próximo domingo, 4 de outubro, milhões de brasileiros irão às urnas para exercer um dos direitos mais importantes de uma democracia: escolher seus representantes.
É um momento grandioso. Uma decisão que terá consequências para os próximos quatro anos e que deveria despertar na população o interesse pelo debate, pela apresentação de propostas e pela construção de um país melhor.
Entretanto, em meio à importância desse processo, existe uma realidade que merece uma reflexão profunda: a maneira como parte da sociedade passou a tratar aqueles que pensam politicamente de forma diferente.
O Brasil atravessa um período de intensa polarização. E o que deveria representar a diversidade de pensamentos, tão necessária em uma democracia, em determinadas situações tem se transformado em um ambiente de hostilidade, intolerância e rompimento de relações.
É como se algumas pessoas tivessem se apropriado de uma verdade absoluta. Uma verdade que não admite questionamentos, não aceita contrapontos e, principalmente, não reconhece o direito de alguém pensar diferente.
Para quem assume essa postura, discordar deixou de ser uma manifestação legítima de opinião. Passou a ser interpretado como uma afronta pessoal, uma ofensa e, em alguns casos, motivo suficiente para romper amizades construídas ao longo de décadas.
E é justamente aí que mora o perigo.
Quando uma pessoa passa a acreditar que somente ela está certa, que sua escolha política é a única moralmente aceitável e que todos os demais precisam pensar exatamente da mesma maneira, o diálogo perde espaço. A intolerância encontra terreno fértil, e a agressividade pode se aproximar perigosamente da violência.
O mais preocupante é perceber que esse comportamento pode surgir justamente entre pessoas que, até pouco tempo, conviviam harmoniosamente. Amigos deixam de se falar. Familiares evitam encontros. Relações de respeito são substituídas por discussões carregadas de ressentimento.
E por quê?
Porque alguém decidiu votar em um candidato diferente? Porque defende outra proposta de governo? Porque enxerga os problemas do país por uma perspectiva distinta?
Desde quando pensar diferente passou a ser motivo para desrespeitar alguém?
É preciso compreender que defender uma posição política não significa receber autorização para humilhar, ameaçar ou agredir quem discorda dela.
Da mesma forma, respeitar uma opinião diferente não significa concordar com ela. É perfeitamente possível discordar profundamente de uma ideia, questionar propostas, cobrar explicações e combater discursos discriminatórios sem transformar o adversário político em inimigo pessoal.
Existe uma diferença enorme entre convicção e fanatismo. Entre defender uma ideia e tentar impô-la. Entre participar de um debate e desejar silenciar quem pensa diferente.
A democracia não exige unanimidade. Pelo contrário, sua existência depende da possibilidade de convivência entre pensamentos distintos, dentro dos limites da lei e do respeito aos direitos fundamentais.
É importante também lembrar que políticos passam, governos terminam, mandatos chegam ao fim e alianças se modificam. Aqueles que hoje ocupam lados opostos podem, amanhã, estar dividindo o mesmo palanque.
Enquanto isso, o cidadão que destruiu uma amizade, rompeu com um irmão ou deixou de falar com um vizinho poderá carregar por muito tempo as consequências de uma discussão que jamais deveria ter ultrapassado os limites do respeito.
Será que vale a pena perder uma amizade de vinte anos por causa de uma eleição que será decidida em um único domingo?
Será que vale a pena transformar a mesa da família em um campo de batalha? Será que uma preferência partidária pode ser mais importante do que o carinho, a consideração e a história construída ao lado de alguém?
São perguntas que precisam ser feitas.
E não se trata de defender a indiferença diante dos problemas do país. A política é importante demais para ser tratada com desprezo. É por meio dela que decisões sobre saúde, educação, segurança, emprego e tantas outras áreas são tomadas.
O problema não está em gostar de política, defender candidatos ou manifestar convicções. O problema começa quando a preferência política passa a determinar o valor que atribuímos a outro ser humano.
Quando a cor de uma bandeira se torna mais importante do que a dignidade de uma pessoa, alguma coisa está profundamente errada.
Quando alguém prega liberdade, mas não tolera a liberdade de escolha do outro, existe uma contradição que precisa ser reconhecida.
Quando se fala tanto em defender a democracia, mas se tenta impedir que outras pessoas manifestem suas opiniões, é necessário refletir sobre o verdadeiro significado dessa palavra.
E quando a violência passa a ser considerada uma resposta aceitável à divergência política, já não estamos falando apenas de uma discussão eleitoral. Estamos diante de uma ameaça à convivência democrática.
O Brasil precisa de eleitores conscientes, não de inimigos declarados. Precisa de debates, não de ameaças. Precisa de cidadãos capazes de defender suas ideias sem perder a capacidade de reconhecer a humanidade de quem discorda.
No próximo domingo, cada brasileiro terá o direito de fazer sua escolha, de acordo com sua consciência, seus valores e sua compreensão sobre o futuro do país.
Alguns irão comemorar. Outros ficarão decepcionados. Isso faz parte do processo democrático.
Mas, quando as urnas forem fechadas, o Brasil continuará sendo a casa de todos nós.
O vizinho continuará sendo vizinho. O irmão continuará sendo irmão. O amigo continuará carregando a história de tantos momentos compartilhados.
E nenhum resultado eleitoral deveria servir de justificativa para que o respeito desapareça.
Porque existe algo que precisamos compreender antes que seja tarde: nenhuma vitória política compensa a perda da nossa humanidade.
Podemos defender candidatos diferentes, acreditar em projetos distintos e discordar sobre os caminhos que o Brasil deve seguir.
Mas não podemos permitir que essas diferenças destruam aquilo que torna possível viver em sociedade.
Afinal, de que adianta lutar tanto pelo futuro de um país se, durante essa caminhada, somos incapazes de respeitar as pessoas que fazem parte dele?
Que cada brasileiro exerça livremente o seu direito de votar. Mas que, acima de qualquer preferência política, jamais perca a capacidade de respeitar, dialogar e conviver.
Porque, no fim das contas, uma eleição decide quem vai governar. Mas são as nossas atitudes que revelam quem verdadeiramente somos.
Paraíba da Gente

















