Para muita gente, entre o aluguel e a escritura existe uma ponte chamada financiamento. Mas, em pleno 2026, a pressão dos juros altos, com Taxa Selic de 13,75%, não inibe esse meio de aquisição de um imóvel? Na Paraíba, pelo menos, não está funcionando assim. Em julho deste ano, a carteira de financiamentos para pessoas físicas no estado alcançou R$ 24,05 bilhões, a quarta maior do Nordeste, atingindo o maior valor da série histórica do Banco Central, iniciada em 2007. O avanço é de 16% sobre os R$ 20,73 bilhões registrados um ano antes. E o detalhe que desafia a lógica do aperto monetário: a inadimplência desceu na contramão, para 1,09%, a menor marca já anotada e, atualmente, a segunda menor entre os nove estados nordestinos, ficando atrás apenas de Pernambuco (0,94%). O curioso é que falamos da mesma Paraíba onde quase metade da população adulta está inadimplente. Mas fica claro que, na hora de pagar a parcela do apartamento, os devedores são poucos.
Com juros elevados encarecendo cada parcela, o esperado seria um freio de mão puxado. Mas, no mercado imobiliário, a demanda não é capricho, é necessidade de longo prazo, como resume Artur da Silva Figueiredo, assessor de Ciclo de Crédito da Central Sicredi Nordeste: “O crédito imobiliário tem uma característica diferente de outras modalidades porque está diretamente ligado a uma necessidade de longo prazo das famílias. Mesmo em cenários de juros mais elevados, existe uma demanda que permanece, seja para aquisição da moradia, seja para substituição ou ampliação do imóvel”.
O dinheiro para erguer esse recorde também vem de mais de uma fonte. A poupança, que já foi a matéria-prima quase exclusiva do financiamento, perdeu força, mas ainda movimentou R$ 1 bilhão na Paraíba no primeiro semestre de 2026, alta de 29% sobre o mesmo período de 2025, segundo a Associação Brasileira de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip). O restante da obra é bancado por uma engenharia financeira mais moderna. “Nos últimos anos, a estrutura de funding do crédito imobiliário passou por uma diversificação. Além da poupança, recursos do FGTS e instrumentos como LCIs e CRIs passaram a ter uma participação importante. Isso amplia as possibilidades de captação e permite que o mercado continue atendendo à demanda por financiamento”, afirma Figueiredo.

Para quem está no canteiro, o número é mais que estatística. Carlos Feitosa, sócio da Eco Construtora, enxerga no financiamento a ponte que separa o inquilino do proprietário: “O financiamento transforma a demanda reprimida em venda concreta ao diluir o valor do imóvel em parcelas compatíveis com a renda, permitindo que o cliente que hoje aluga possa se tornar proprietário. Em um mercado que ainda enfrenta um déficit habitacional elevado, o financiamento é uma ponte entre o desejo pelo imóvel próprio e a realidade financeira do brasileiro”.
As cooperativas de crédito entraram nessa obra com ferramentas próprias. Na Paraíba, a carteira imobiliária do Sicredi cresceu 40% em 12 meses e chegou a R$ 22,1 milhões em julho de 2026. A receita: financiar até 90% do valor de imóveis residenciais, em prazos de até 35 anos, com sistema de amortização constante, aquele em que as parcelas tendem a diminuir com o tempo. A aposta é tão grande que a instituição projeta multiplicar por mais de dez vezes a carteira até 2029.
O gestor Comercial da MRV Engenharia na Paraíba, Pedro Farias, garante que o estado segue no radar de investimentos. “Seguimos confiantes no potencial do estado e vamos continuar investindo com novos empreendimentos que acompanhem o crescimento da cidade e as demandas das famílias. É um movimento de inclusão e transformação urbana. Com políticas públicas eficientes, crédito acessível e empresas comprometidas com esse propósito, estamos ajudando a construir histórias e movimentando toda uma cadeia de geração de renda”.
Jornal da Paraíba
















