A intolerância política voltou a mostrar sua face nas redes sociais. Desta vez, o alvo foi o cantor e compositor pernambucano Maciel Melo, um dos nomes mais respeitados da música nordestina, após declarar publicamente seu voto no presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Em vídeo publicado nas próprias redes, o artista revelou que passou a receber ataques, críticas agressivas e comentários ofensivos. Algumas pessoas também decidiram deixar de segui-lo por causa de sua posição política.
“Eu fiquei estarrecido com os comentários. Muita gente me detonando, esculhambando comigo, outros deixando de me seguir”, desabafou. Maciel reconheceu que ninguém é obrigado a acompanhá-lo, mas lamentou que uma escolha eleitoral seja suficiente para provocar hostilidade e romper relações.
Para o compositor, não é normal que as pessoas deixem de gostar umas das outras apenas porque pensam diferente. “É nas divergências que a gente cresce, que a gente aprende”, afirmou.
Maciel Melo também defendeu o direito de o artista exercer plenamente a cidadania. Antes da figura pública, segundo ele, existe o cidadão, que pode escolher livremente seus candidatos e manifestar o que pensa sobre os rumos do país.
“Esse mundo está muito louco, e a gente precisa fazer alguma coisa. A única forma que eu posso contribuir é fazendo a minha música e dizendo o que eu penso”, declarou.
A manifestação levanta uma questão incômoda: desde quando admirar a obra de um artista exige concordar com todas as suas posições políticas? O público tem o direito de criticar, discordar ou deixar de acompanhar qualquer personalidade. O que ultrapassa o limite democrático são as ofensas, o ódio e as tentativas de desqualificar toda uma trajetória por causa de um voto.
Maciel Melo não é um desconhecido que apareceu agora nas redes sociais. Sua obra atravessa gerações e já ganhou a voz de grandes intérpretes da música brasileira, como Flávio José, Elba Ramalho, Fagner, Dominguinhos, Geraldo Azevedo, Xangai e Zé Ramalho.
Entre as composições mais conhecidas estão “Caboclo Sonhador”, transformada em verdadeiro hino do forró nordestino, além de “A Poeira e a Estrada”, “Isso Vale um Abraço”, “Desafio”, “A Ponteira e o Peão”, “Duas Caravelas” e “Sanfoneiro Ruim”. Canções que ajudaram a contar a vida, os sentimentos e a resistência do povo nordestino.
Maciel já havia demonstrado apoio a Lula anteriormente e, em 2022, chegou a compor uma música para a campanha do petista. Portanto, sua posição não representa uma mudança repentina ou uma tentativa de aparecer no período eleitoral.
A polêmica deixa uma reflexão: discordar faz parte da democracia; atacar alguém por pensar diferente é justamente negar o princípio democrático que muitos dizem defender. Maciel Melo pode perder seguidores por causa de sua escolha política, mas nenhuma eleição tem força para apagar sua contribuição à cultura nordestina. Afinal, voto passa. A obra permanece.
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