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“Em tempos de músicas descartáveis, Nanado Alves prova que a poesia ainda resiste”

Em um texto emocionante, o advogado Sérgio Bezerra presta homenagem ao compositor nordestino, enaltecendo sua genialidade, a força de suas letras e a fidelidade às raízes culturais em meio às transformações da música brasileira.

paraibadagente por paraibadagente
30/07/2026
in Destaques, Notícias
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“Em tempos de músicas descartáveis, Nanado Alves prova que a poesia ainda resiste”
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OBRIGADO, POETA

Sérgio Bezerra

Cresci escutando minha avó Maria de Mariano dizendo: “Meu filho, depois que se prova o que é bom, dificilmente a pessoa se acostuma com o que não presta”. Contudo, o cabra enquanto menino não entende o alcance do ensinamento, não se dá conta de nada.

Mas o tempo implacavelmente passa, com a “modernidade” procurando insistentemente contaminar a raiz, tentando nos levar próximo a uma confusão mental. Nesse contexto, num dos últimos shows a que assisti, fiquei com a nítida impressão que estava tendo um grave problema auditivo. É que, enquanto eu fazia um esforço hercúleo para entender pelo menos uma palavra da música que o artista cantava, o restante dos presentes sabia e cantava tudo, do começo ao fim. Só me tranquilizei quando, ao fim do show, o cabra cantou uma música de Petrúcio Amorim — e eu também. Ufa.

Dito isso, sem falsa modéstia, eu me considero um sujeito de formação cultural inabalável. É que, na poesia, ainda muito jovem, deu tempo de assistir às pelejas de Pinto com Louro, e, sem arredar o pé da minha terra natal, vivenciar as poesias de Jansen Filho, Diniz Vitorino, Amaro da Gameleira e Lino Pedra Azul.

Na música, apreciei Roberto Carlos no auge, me regozijei com as vozes de Gal Costa, Maria Bethânia, Beth Carvalho, Simone e Marisa Monte. Também me identifiquei com as obras de Belchior, Chico, Caetano, Gonzaguinha, Benito de Paula e Martinho da Vila. Aprimorei, ainda, o pertencimento nordestino, ouvindo Luiz Gonzaga, Trio Nordestino (com Lindú), Dominguinhos, Flavio José, Jorge de Altinho e Santana.

Por outro lado, o tipo de canção que se chamava de brega era a cantada por Waldick Soriano, o autor de “Torturas de Amor” — que, convenhamos, comparada às bregas de hoje, Waldick era quase um Chico Buarque de Holanda.

Por ter tido a oportunidade de vivenciar tudo isso, eu me considero um sujeito bafejado pela sorte. Porém uma das coisas que me fez não arredar o pé do meu ser foi conhecer, admirar, conviver e crescer com um sujeito capaz de, de uma hora para outra, abrir a boca e, no repente, dizer: “Sete linhas é o bastante para expressar o que sente / Pra ficar cambaleante, sete copos de aguardente / Sete vezes vou te amar, mesmo tendo que amargar / sete saudades na frente”.

Não obstante, esse cabra de origem humilde, capaz de retratar o Nordeste dos pés de mandacaru, dos terrenos baldios, do cheiro do chão de terra molhada, ainda saca da cartola “um punhal de prata” e, no melhor estilo MPB, crava: “Se fizer tudo que é preciso, a gente tem um milhão de flores para plantar no jardim do coração de alguém… Não vou procurar milhões de estrelas, se te olhando posso vê-las faiscando nesse choro de adeus”.

Um artista completo, polêmico, muitas vezes incompreendido, mas um talento que desenhou espetacularmente, com Lápis de Cor, que “a saudade faz parte de quem já amou, de quem ficou sozinho, de quem chorou baixinho, sem chamar atenção”. E, só para chatear, andou desfilando na fauna brasileira, para distante de quem ama, encontrar um Mensageiro beija-flor para mandar um recado: “Queria lhe mandar um beijo, mas não achava um portador, pra lhe falar do meu desejo, pra lhe dizer como eu estou.” Na mesma caminhada — desta feita, em quatro mãos, com o eterno parceiro Ilmar Cavalcante — reluziu: “Um Passarinho aqui pousou, aliviou a solidão, depois fugiu deixou saudade, essa cidade nesse escuro, essa mentira, esse muro, essa barreira entre a verdade.”

Por outro prisma, esbanjando autoconfiança, apesar das dores de uma Cicatriz, sustentou: “Se não consegues ser feliz, depois de tudo que te fiz, eu vim te procurar, tentar fechar a cicatriz, pedir, cheinho de saudade, pra me perdoar”.

Nanado Alves, é um gênio que, com sua arte, encanta milhares, sem fazer força para ser reconhecido, muito menos abdicar de viver de acordo com seus próprios valores. Enfrentando a concorrência desleal de uma musicalidade “ruim e desletrada”, sempre manteve sua essência, crescida e lapidada no chão de terra batida do Alto da Bela Vista, sob os olhares cuidadosos de dona Zefa e seu Severino.

Obrigado, muito obrigado, poeta.

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