Se tiver que escolher entre constranger um aliado e algo que pode atrapalhar sua reeleição, ninguém no governo tem dúvida sobre qual seria a decisão do presidente da República. É por causa dessa certeza que a luz amarela acendeu recentemente em dois gabinetes importantes de Brasília. Desde 2006, o Nordeste é, proporcionalmente, a região que mais votos entrega ao PT, de um modo geral, e a Lula, em particular. Esse ativo eleitoral pode estar em risco. Pesquisas de intenção de voto indicam que Ceará e Bahia, dois colégios eleitorais importantes, podem eleger adversários do PT em outubro, colocando fim à hegemonia do partido de mais de uma década nos dois estados e ameaçando comprometer a vantagem numérica que Lula contabiliza para tentar conquistar o quarto mandato. Faltam nove meses para as eleições, muitas das candidaturas postas ainda são especulativas e tudo pode mudar, mas a simples possibilidade de algo dar errado nesse território dominado pelos petistas já está gerando insegurança e planos de contingência.

A situação é considerada mais preocupante no Ceará, onde o ex-governador Ciro Gomes (PSDB) lidera as pesquisas de intenção de voto, 10 pontos à frente do atual governador. De acordo com levantamento divulgado pelo Paraná Pesquisas, em um eventual segundo turno, Ciro bateria Elmano de Freitas (PT), candidato à reeleição, por confortáveis 15 pontos de diferença. Terceiro maior colégio eleitoral do Nordeste e o oitavo maior do país, o Ceará elegeu governadores petistas em sequência nos últimos doze anos. Na mais recente disputa presidencial, sete em cada dez eleitores votaram em Lula, patamar que o PT espera que se repita em outubro, quando o presidente deve enfrentar uma direita rachada, mas ainda bastante competitiva. Consolidando a supremacia, em 2024 o partido ainda conquistou a prefeitura de Fortaleza. As estatísticas demonstram que ter a máquina administrativa nas mãos é meio caminho andado para o sucesso nas urnas. São raros os casos de governadores que não conseguem a reeleição, e Elmano de Freitas não era postulante a entrar nesse rol até o fim do ano passado, quando surgiu a candidatura de Ciro Gomes.

Ex-ministro de Lula e ex-candidato à Presidência da República, Ciro se aliou aos adversários de Freitas, costurou uma aliança com o PL de Jair Bolsonaro, difundiu conteúdos destacando os graves problemas de segurança do estado, prometeu um duro combate à criminalidade e acenou com aumento de salário para policiais civis e militares. O Ceará ocupa o terceiro lugar no ranking da violência urbana, uma preocupação de dez em cada dez eleitores do país. O resultado dos discursos do tucano apareceu na semana passada. Levantamento divulgado pelo Paraná Pesquisas mostrou Ciro Gomes com 44,8% das intenções de voto, ante 34,2% de Elmano, 7,9% do senador Eduardo Girão (Novo) e 1,6% do professor Jarir Pereira (PSOL). Ou seja, o tucano pontua melhor que os outros três concorrentes somados — o que lhe garantiria hoje uma vitória no primeiro turno. No cenário de um segundo turno entre o ex e o atual governador, a diferença é ainda maior: 51,9% a 37,2%.
O avanço da oposição já vinha sendo discutido nas reuniões de avaliação política do Planalto e deu origem a um plano de contingência que prevê, em último caso, a substituição de Elmano de Freitas pelo ex-governador Camilo Santana, atual ministro da Educação. Ele anunciou que, em breve, deixará o cargo para se dedicar à campanha de Elmano de Freitas. Não foi uma decisão ao acaso. É uma tentativa que ele e o PT farão antes de pensarem em implementar a alternativa mais drástica. Camilo, que foi eleito senador em 2022 e está licenciado do Congresso, foi avisado de que pode ser chamado a concorrer ao governo do Ceará contra Ciro.

Caso se confirme, será uma intervenção traumática. “Sou contra essas patacoadas de tirar o direito de um governador tentar a reeleição”, critica o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT), pré-candidato ao Senado na chapa de Elmano no Ceará. O ministro Camilo, por sua vez, aprova a ideia, mas só entre quatro paredes. Publicamente, mantém o discurso oficial: “Quero dizer claramente que o meu candidato, para quem eu vou trabalhar, será o Elmano de Freitas, para ser reeleito governador do Ceará, e o presidente Lula, para ser reeleito presidente deste país”, afirma.

Embora em menor escala, a situação na Bahia, o maior colégio eleitoral do Nordeste, também acionou o sinal de alerta no PT. No estado em que o partido ostenta sua mais longeva hegemonia — são quase vinte anos no Palácio de Ondina —, quem aparece na liderança das pesquisas é o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil), 9 pontos à frente do atual governador e candidato à reeleição Jerônimo Rodrigues. Em 2022, Jerônimo foi eleito com 52% dos votos e Lula conquistou 72% dos votos baianos no segundo turno. Mas o plano de emergência para a Bahia tem um diferencial em relação ao do Ceará.
Escalado como alternativa para, se necessário, tentar evitar uma derrota, o ministro Rui Costa, chefe da Casa Civil, não descarta a possibilidade. Pelo contrário. Governador do estado de 2015 a 2022, ele não esconde sua aversão a cargos no Congresso. No plano original, seria candidato a uma vaga no Senado. Costa, porém, nutre o desejo de ser lembrado como candidato ao Palácio do Planalto no pós-Lula e, por essa lógica, atender o presidente e trabalhar por votos no Nordeste para um eventual quarto mandato poderia alçá-lo no médio prazo a posições mais confortáveis numa futura disputa pela sucessão do mandatário. “Não existe eleição fácil. Nós vamos depender muito do cenário nacional, e a avaliação de Lula tem melhorado na Bahia”, disse Jerônimo Rodrigues.

Nos últimos dias, o presidente do PT, Edinho Silva, se reuniu com o governador para conter o fogo amigo. A interlocutores negou a hipótese de qualquer intervenção radical no Estado e disse ter deixado tudo encaminhado para a campanha de Jerônimo à reeleição. Nas próximas semanas, o grupo de trabalho montado pela direção do PT para traçar a estratégia visando ao pleito deve finalizar o diagnóstico sobre o cenário em cada um dos colégios eleitorais do país. Na sequência, tudo será levado ao presidente, que, como de costume, é quem dará a palavra final. Os casos do Ceará e da Bahia devem receber atenção especial. Qualquer retrocesso no Nordeste pode ser fatal ao projeto de Lula em 2026.
Com Veja





















