Há dias em que a gente acorda com a sensação de que algo está fora do lugar — não no mundo, mas dentro das pessoas. Cada nova notícia parece um corte, uma ferida aberta que insiste em sangrar. Crianças violentadas, vidas interrompidas, inocências esmagadas por mãos que deveriam proteger. E a pergunta que ecoa, pesada, sufocante, é sempre a mesma: o que está acontecendo com a humanidade?
A maldade humana nunca foi inédita, mas parece que agora ela encontrou microfone, palco e plateia. Talvez porque o mundo esteja doente — não um resfriado, não uma febre passageira — mas um adoecimento profundo, silencioso, rasteiro. O tipo de doença que se instala na alma quando empatia vira fraqueza, quando o outro perde valor, quando a raiva domina espaços que antes pertenciam ao cuidado.
Vivemos tempos de pressa, de telas que engolem afetos, de gente que desaprendeu a olhar nos olhos. Tempos em que muitos buscam aliviar suas frustrações machucando quem não consegue reagir. Tempos em que o ódio parece mais acessível do que a paciência. E no epicentro desse caos, estão elas — as crianças, tão pequenas, tão indefesas, tão facilmente feridas por adultos emocionalmente quebrados.
O adoecimento mental, que deveria ser tratado com seriedade, virou tabu para uns e desculpa para outros. Mas o que vemos não é apenas doença: é descaso, é falta de limite, é ausência de amor-próprio, é uma sociedade que rompeu a linha do cuidado e deixou escapar sua humanidade pelo ralo.
E então assistimos a barbaridades repetidas, cada vez mais brutais, cada vez mais próximas. Não são monstros saindo de cavernas. São pessoas circulando entre nós — vizinhos, conhecidos, alguém que sorri no portão, mas carrega dentro de si um universo inteiro de escuridão e descontrole.
E seguimos perguntando: o que está acontecendo?
Talvez a resposta esteja na forma como nos afastamos uns dos outros. Como normalizamos a violência, como reduzimos a importância da família, do afeto, do tratamento psicológico, da empatia. Como deixamos o mal crescer na brecha da indiferença.
Mas ainda há tempo.
Tempo de gritar quando todos se calam.
Tempo de denunciar.
Tempo de cuidar das nossas crianças como se fossem do mundo — porque são.
Tempo de tratar a dor para que ela não vire tragédia.
Tempo de perceber que a humanidade só adoece quando esquece de amar.
E talvez, só talvez, ao recuperar esse amor perdido, a gente consiga responder a pergunta que tanto dói. Porque a verdade é que não podemos aceitar que a barbárie seja rotina. Não podemos normalizar o caos. Não podemos deixar que a maldade humana seja maior do que a nossa capacidade de proteger.
Que essa crônica seja um convite para olhar para dentro, antes que o mundo de fora desmorone de vez. Porque toda mudança começa assim: com um coração que ainda se recusa a adoecer.
PARAÍBA DA GENTE





















