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Médica infectologista relata crise de choro e plantões exaustivos em pandemia

Quando o despertador toca às 7h, Mariane Taborda vai ao banheiro, escova os dentes, troca de roupa e sai de casa, sem tomar café da manhã, rumo ao trabalho. O corpo ainda está cansado de dias e dias consecutivos, consequência da carga horária exaustiva e prestes à enfrentar de 12 a 14 horas dentro do hospital. A médica infectologista foi escalada para trabalhar no “covidário”, ala especial que ganhou este nome dentro do Hospital das Clínicas, em São Paulo, voltada apenas aos pacientes diagnosticados com a Covid-19.

A maioria dos dias eu trabalho por volta de 12 horas. Não raro, não tenho hora para sair: posso ficar até 14 horas no hospital. Antes da pandemia, eu tentava tirar uma folga por semana, mas não consigo mais. Minha alimentação, por exemplo, piorou. Tento comer de forma adequada, mas tem sido difícil. Tenho tomado suplementos prescritos por meu nutricionista. Faço acompanhamento com ele, que tem me ajudado muito a não desistir da minha reeducação alimentar”, conta a médica. “Ele me mantém no foco, mas tem momentos que estou tão estressada que acabo comendo besteira. Quero comer chocolate, pizza, hambúrguer, coisas que não são tão saudáveis quanto eu gostaria.”

A médica revela que faz tratamento para ansiedade e depressão há oito anos e tem feito consultas com um psiquiatra por videoconferência durante a pandemia. Por mais que não descuide de sua saúde mental, são inevitáveis os momentos de descontrole emocional.

Tive uma primeira grande crise de choro no início de maio. Estava muito estressada, enquanto saía do hospital, e muito cansada. Fui para uma outra clínica e, quando cheguei, descompensei e chorei muito. Comecei a sentir muita vontade ainda quando estava no carro, indo de um lugar para o outro de trabalho, acompanhando o trânsito na rua. Pensei: ‘O que essas pessoas estão fazendo nas ruas? O que elas estão pensando?’”, se questiona.

“Tive uma primeira grande crise de choro no início de maio. Estava muito estressada e muito cansada””

Mariane Taborda

Mariane entende que alguns tenham de trabalhar, mesmo não estando enquadrados entre os profissionais de  “serviços essenciais”, por questões econômicas, mas acredita que muita gente que poderia estar em casa e está nas ruas sem motivo relevante.

“Sei que muitos precisam ganhar dinheiro, mas, como profissional de saúde, acompanho diariamente pessoas adoecendo, sendo levadas à Unidade de Terapia Intensiva [UTI], o que me deixa muito aflita”, diz ela. “Após a crise de choro, conversei com duas amigas, que me ajudaram a por todos os meus sentimentos para fora, me apoiaram. Após essa crise, melhorei. Tenho tentado ver o lado positivo das coisas. Às vezes, não tem, mas me levanto para trabalhar e torço para que a pandemia se amenize logo.”

Caos na saúde

A médica esperava que este caos não fosse chegar ao Brasil, já que o país acompanhava, pela mídia, os problemas graves decorrentes da doença em nações como China, Itália e Espanha. Mariane não imaginava que, em apenas dois meses, o Brasil se transformaria na segunda nação com mais casos de coronavírus, atrás apenas dos Estados Unidos, que registra mais de 100 mil mortes _por aqui, ultrapassamos 23 mil mortes, contabilizando mais de 370 mil casos da doença.

“Ainda não vivenciei um momento extremo em nenhum dos hospitais onde trabalho, como ter de escolher entre um paciente ou outro para viver, mas tenho medo que isso aconteça em breve””
Mariane Taborda

“Ainda não vivenciei um momento extremo em nenhum dos hospitais onde trabalho, como ter de escolher entre um paciente ou outro para viver, mas tenho medo que isso aconteça em breve. De verdade! É algo sobre o que tenho pensado e isso me deixa muito tensa, porque não é o que a gente quer. Queremos poder ajudar a todos. Cuidar para que saiam dessa situação vivos e bem. Vou sofrer muito se isso chegar a acontecer”, diz a infectologista.

Saí de casa pois sabia que eu ia começar a atender nos ‘covidários’ e estaria exposta. Para proteger minha mãe, meu pai e irmão, estou morando com amigos infectologistas. Tenho revezado minhas noites nas casas de amigos corajosos, que têm aberto suas portas. A cada três ou quatro semanas, moro na casa de um. Não vejo outros amigos, somente os do trabalho”, descreve.

Mesmo com tantas dificuldades, Mariane não pensa em desistir. “Antes de cuidar de alguém, preciso estar sã. Retomei os exercícios de pilates que tinha parado e isso tem sido bom. As lives de música ajudam muito a dar uma desestressada. Tenho tentado fazer coisas que me fazem bem para superar ou fazer com que eu fique o melhor possível para não interferir no cuidado dos pacientes, que não têm nada a ver com o que estou passando. É isso que estou tentando fazer.”

“Queremos superar esse drama o mais rápido possível para voltar um pouco ao normal, mas sabemos que talvez nunca mais exista esse normal. Por isso, precisamos amenizar a situação”

Mariane Taborda

Ao fim, Mariane pede para deixar: “Fique em casa, se puder”, enfatiza a médica. Ela destaca ainda que todos gostariam de estar na rua, se exercitando, correndo, indo ao shopping, fazendo compras, mas, cada vez que alguém sai de casa sem necessidade, a situação dentro do hospital piora.

“Queremos superar esse drama o mais rápido possível para voltar um pouco ao normal, mas sabemos que talvez nunca mais exista esse normal. Por isso, precisamos amenizar a situação“, diz ela. “Todo mundo tem contas a pagar, precisa ganhar dinheiro, mas, como infectologista, é muito difícil ver as pessoas nas ruas como se nada estivesse acontecendo, emquanto passo o dia internando vítimas da doença. Infelizmente, sabemos que isso vai demorar a passar”, lamenta.

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